domingo, 23 de dezembro de 2007

A Clássica do Montanhismo Brasileiro.


Cada parque nacional brasileiro acaba tendo sua própria especialidade em determinados pontos. No Parque Nacional da Serra dos Órgãos, as montanhas são os pontos mais especiais. Quem nunca ouviu falar das escaladas do Dedo de Deus? Além do Dedo há inúmeros lugares para se curtir um montanhismo de tradição, e um deles é a travessia das cristas rochosas que há entre as cidades de Petrópolis e Teresópolis.

Tempo bom até sábado, este foi o sinal que estaríamos partindo na quinta feira, dia 11 de outubro de Itajubá. Estávamos em 8 na equipe, o Francisco Dupas, o André Chiarello, o Josué Meystre, a Rebeca, o Rodrigo Wasem, o Marcelo Kiwi, a Luane e eu Orlando. Chegamos à portaria do P.N.S.O em Petrópolis no bairro do Bom Fim, as 16:00 onde assinamos o nosso comprometimento de chegar do outro lado com 3 dias de caminhada, ou seja, com 2 pernoites na serra.
Adentramos por um vale cercado de paredes verticais com mais de 200m de altura, entre elas a Pedra do Ser, uma parede riscada que fica bem de frente com a portaria e que conta com mais de 20 vias de escalada. Por ali seguimos em direção da cachoeira do Véu da Noiva onde tomamos a subida em nível a direita até chegar ao Pão de Queijo, um belo mirante de rocha que lembra muito esta iguaria mineira.

Com quatro horas de caminhada estávamos chegando ao nosso primeiro ponto de pernoite, o Ajax local que possui uma bela área de camping com uma mina de água muito próxima, situada à esquerda de quem sobe.Á s oito horas da manhã, já encaramos uma subida íngreme de trinta minutos, a famosa Isabeloca, até alcançar as lajes de granito da crista norte. Ali não há marcações nenhuma, a noite e com névoa qualquer montanhista experiente poderá se perder por ali, não há nem totens, apenas piso de pedra e poucos “xaxins”.

Com duas horas e meia de caminhada chegamos nos Castelos do Açu, uma formação rochosa a 2.245m que possui a forma de um peixe, onde há um pequeno abrigo de pedra e água. Há também 3 vias de escalada em seus blocos, uma ferrata no bloco norte, um artificial negativo nas paredes de dentro e uma que se inicia em uma canaleta no bloco sudoeste. Dali observamos alguns totens no Morro do Cruzeiro, montanha próxima situada a oeste do Açu e seguimos por ali, logo observamos que este era uma caminho alternativo onde logo a frente encontramos a trilha principal. Seguimos por uma laje a esquerda até descer um grotão e subir para o Morro do Marco, dali se você tomar a sua direita (leste) irá chegar aos Portais de Hércules.

Tomamos o sentido norte em direção a uma mata situada no pé do Vale da Luva, local recheado de Orquídeas, Bromélias e outras espécies de flores bem coloridas. Neste ponto há uma área de camping com água (que nesta época estava bem escassa). Após subir o Morro da Luva avistamos de cara a bela formação do Dedo de Deus, do Dedo de Nossa Senhora, do Escalavrado e das impressionantes paredes do Garrafão e da Pedra do Sino.

Na Luva tomamos uma decisão errada, na verdade pelo mapa antigo que possuíamos estava certa, quebramos a esquerda (norte) em direção a uma grande grota ao invés de descer toda laje da Luva sentido nordeste para tomar o Elevador, local que atravessa uma grota onde há uma ponte e corre-mãos para subir no último ombro que nos leva ao Vale das Antas. Fomos seguindo uns totens antigos, meio “nada a ver”, que estavam nos levando a lugar nenhum, até que visualizamos uma trilha subindo depois de uma grota funda. Forçados a seguir em direção aquele caminho, seguimos por lajes e trilhas pouco amassadas até alcançarmos uma crista a nordeste, onde visualizamos um grupo logo abaixo indo em direção ao Elevador.

Não achávamos que seria complicado pegar a trilha principal, pois é uma caminhada muito freqüentada, mas acabamos saindo dela mesmo com tempo bom. A noite, com neblina ou chuva o conselho é ir com a galera local. Após visualizarmos o Vale das Antas tomamos o sentido correto pelas lajes e seguimos pelo caminho descriminado no mapa. Sabíamos que ali era uma trilha, pois topamos com vários totens, trilhas em xaxins e setas vermelhas que estavam quase se apagando no chão.Chegamos no Vale das Antas e decidimos pernoitar por ali. Logo chegou aquele grupo que visualizamos abaixo de nós. Eles estavam fazendo a travessia em um dia, 2 guias locais e quatro mulheres. Então um deles, o Leonardo, nos confirma que tínhamos pegado mais um caminho alternativo dentre os vários que existem.Passamos uma noite muito agradável no Vale das Antas, área perfeita para quatro barracas e próxima a nascente do Rio Soberbo.

As oito da manhã estávamos partindo para o cume da Pedra do Sino. A subida é maravilhosa, em tempo bom avistasse toda a Baia de Guanabara. Em certo ponto caminhamos em cima de uma crista que há uma laje muito parecida com o dorso de uma baleia (a Pedra da Baleia) e ao nosso lado as paredes do Garrafão e da Pedra do Sino começaram crescer a direita. A rota era beirar a parede esquerda (Oeste) da Pedra do Sino. Descemos um lugar exposto, onde existem grampos para garantir a segurança na descida, e, tomamos a encosta do Sino através de uma trilha suspensa até chegar na passagem do Cavalinho, um boulder bem fácil, mais difícil devido a mochila pesada e a exposição. Mas nada que uma corda garanta a passagem segura. Após subirmos uma escada de ferro, estávamos a 15 minutos do cume. Foi emocionante chegar com a galera nos 2.263 metros de altitude da Pedra do Sino. Ás 10:30 da manhã estávamos curtindo o visual de toda a travessia lá do topo.

Admirando os Três Picos a Nordeste, a Baia de Guanabara meio apagada, devido o tempo seco, ao sul e todas as escarpas da Serra dos Órgãos abaixo de nós.Logo iniciamos nossa descida onde fizemos um breve descanso no Abrigo 4. Em seguida tocamos para baixo através da longa trilha em meio a densa Mata Atlântica. Descobrimos que nesta trilha, bem na cota de 2.000m, há uma trilha que fica a direita de quem desce, bem de frente a uns blocos de pedra que segue em direção à Agulha do Diabo, uma das escaladas mais clássicas do P.N.S.O. Ás quatro horas da tarde do Sábado estávamos chegando na portaria do parque em Teresópolis, onde demos baixa e seguimos rapidinho para rodoviária para tentar alcançar o ônibus das 17:00 para Petrópolis onde ficaram nossos carros a 3 dias atrás.

Praticar e viver o Montanhismo é uma oportunidade maravilhosa para a vida, pois a cada aventura vamos descobrindo algo diferente, e nesta, vivenciei um pouco da nossa história, imaginei ali aqueles que hoje são referências para muitos como Mozart Catão e o Alexandre Oliveira iniciando seus primeiros contatos com aquelas que um dia seriam suas eternas moradas. Agradeço aqui o companheirismo e a amizade destes grandes montanhistas: o Dupas, o André, o Josué, a Rebeca, o Kiwi, a Loo e em especial ao grande amigo Rodrigo que dois dias antes de iniciar esta travessia já havia feito o cume do Dedo de Deus no dia 09/10 com a galera da Triboo! (Jonatas Irmão, Juliano, Douglas e Marco Aurélio).
Boas aventuras a todos !
Orlando Mohallem.