domingo, 27 de janeiro de 2008

Um Mantiqueiro no Monte Aconcágua

Tudo começou no III Festival de Montanha de Itajubá, quando recebi um convite do Rodrigo Raineri para dar uma força a uma expedição da GradeVI que partiria em Janeiro de 2006 para o monte Aconcágua. Ganhei este crédito, pois havia feito em 2002 um curso de alta Montanha com ele na Bolívia, onde a partir daí nos tornamos grandes amigos e parceiros de escalada. Ganhei umas milhagens aéreas da minha tia Lígia, montei um projetinho da expedição e apresentei ao diretor da Unimed de Itajubá, na hora ele me deu a força necessária para pagar minhas despesas onde a partir daí comecei a me preparar. Antes de pensar em trabalhar com montanhismo, eu já sentia uma admiração muito grande por esta Montanha, mas nunca imaginava um dia chegar aos pés dela, muito menos no seu cume. Saí de Itajubá no dia 02/01 com uma impressão meio confusa do que eu iria enfrentar nesta aventura, pois muita gente me falava que eu iria dar um passeio por lá, que a via normal era muito fácil e tal. E uma minoria me falava assim: “-vai de boa... não vá achando que é tranqüilo... se prepare!”.



O CAMINHO AO BASE
A equipe foi composta por seis grandes guerreiros: o guia da GradeVI Gonzalo Abedrapo, o Luciano Pires, o Marcio Pelloso, o Bruno Zacarias, o Hugo Alex e eu. Entramos no parque no dia 04/01, dormimos em Confluência (3.300m) e partimos no outro dia para Plaza Francia (4.200m) para aclimatarmos com vistas para fascinante Parede Sul. No dia seguinte, acordamos cedo para enfrentar às 12 horas de caminhada até Plaza de Mulas (4.300m). Geralmente esta caminhada é feita em 8 horas, mas demos preferência à caminhada mais lenta para guardar forças a tudo que ainda viria pela frente. Após atravessar a Playa Ancha, o Vale do Rio Horcones Superior e subir à Costa Brava, chegamos a Mulas. Caminhamos mais 40 minutos até o refúgio, montamos nossas barracas ao lado dos guarda parques e fomos tomar uma sopa lá no abrigo. Fomos muito bem recebidos pelos administradores da casa, o Eduardo Ibarra e a Popi. Lá dentro é muito legal, você não acredita que vai encontrar uma estrutura daquela em um lugar tão inóspito. O refeitório chega a ser ponto de visita a todos que chegam a Mulas, pois há bandeiras, faixas, adesivos e cartazes com mensagens de expedições do mundo todo, onde ali contam suas experiências nas formas mais diversas, desde as mais dramáticas até as mais engraçadas. Dentro do refúgio tudo é muito rústico, sem muita frescura, mas tudo muito caro, um banho sai por U$ 10,00 para ser tomado em 7 minutos, uma cerva custa U$ 3,00 e um lomito (sanduba) U$ 7,00; mas estávamos bem tranqüilos com nossos lenços umedecidos e o nosso macarrão com atum e sucão tang.



O PORTEIO
Descansamos um dia, comecei a sentir uma leve dor de cabeça. No outro dia fomos fazer o primeiro porteio dos nossos equipamentos até Plaza Canadá (5030m). Acordei ainda com dor de cabeça, saí da barraca, olhei pra cima e vi o subidão de cascalho por onde passava a trilha, achei que ia ser mole, coloquei a bota dupla, soquei peso na mochila e saí acelerando no maior “desrespeito” com o Sentinela. Fui à frente de todos, cheguei a Canadá meio cansado, sentei em uma pedra e logo veio um soco na cara, uma dor que parecia que ia explodir a cabeça, fiquei muito mau, isso foi uma resposta da Montanha por ter subestimado o caminho achando que ia ser tudo muito fácil, a partir dali minhas impressões já começavam a mudar. Tiramos umas fotos, fizemos um amontoado de pedras sobre nossas coisas e descemos para o base em Mulas. Descansamos mais um dia, no outro, acordamos cedo para mais um porteio até Nido de Condores (5.500m), porém, já partimos sem o Luciano que havia se cansado muito na subida para Canadá, desistindo por ali de tentar prosseguir com a expedição ao teto das Américas. Em Plaza Canadá, encontramos com a expedição comercial de Paulo e Helena Coelho descendo, aonde sem sorte não chegaram ao topo do Sentinela devido ao mau tempo. Já pesados, pegamos nossas coisas em Canadá e em 4hrs chegamos a Cambio Piendente (5.150m), dali o Bruno que sofre de renite alérgica resolveu voltar para se recuperar, pois estava muito ruim. Lá, o clima é muito diferente da Bolívia que tem a seus pés a Floresta Amazônica, não há umidade no Aconcágua o clima é muito seco. Neste dia eu sempre estava por último na fila, pois havia entendido no primeiro dia de porteio como deveria ser o ritmo de uma caminhada em alta Montanha. Chegamos a Nido em 6hrs de caminhada, deixamos nossas coisas em uma área bem protegida e descemos de novo ao base para mais um dia de descanso.



ACAMPAMENTO AVANÇADO
Já era 11/01, recebemos um recado que um espanhol de 30 anos havia falecido a 50 metros do cume por parada cardíaca, isto abalou todos os membros da nossa equipe, principalmente eu que tinha a mesma idade do companheiro morto. Com grande surpresa, fomos saber no refúgio que o Luciano havia deixado pago um banho de 7 minutos para cada um de nós após sua partida. Mais limpos, partimos no dia 12/01 direto para Nido, onde ficaríamos por lá até tentarmos o cume. O Gonzalo contratou dois porteadores para nos ajudar levar algumas coisas, pois alguns integrantes de nossa expedição resolveram se preservar subindo apenas com as leves mochilas de ataque. Eu e o Bruno subimos com nossas cargueiras pesadas. Minha Equinox Elevation 90/145l estava bonitona, parecia uma nave. Partimos para o Cerro as 10h00min da manhã. De novo, em 6 horas chegamos muito bem em Nido, agora na companhia de mais um amigo, o Gonzalo Del Agnolla, andinista argentino que já havia subido o Aconcágua 10 vezes por várias rotas, por coincidência nossos guias tinham o mesmo nome. Descansamos um dia em Nido, recebemos uma informação pelo rádio que o tempo estaria ruim no dia 16/01, data programada para o cume, resolvemos então antecipar a subida para o dia quinze. No dia 14/01 fomos nos aclimatar em Berlim 6.000m, para na madrugada do dia 15/01 enfrentar a grande subida. Ventava muito, fazia um frio de -8º com sensações térmicas de quase -30º. Era lua cheia, a noite estava linda, mas eu não conseguia dormir de tanta ansiedade e de tanta dor de cabeça. Eu não queria tomar remédio nenhum, pois gostaria que meu organismo se acostumasse a ficar naquele ambiente da forma mais natural possível.



A ÚNICA OPORTUNIDADE
As 02h30min “acordamos” para derreter gelo, encher nossos cantis, arrumar os equipos e tocar pra cima. Estávamos em dois barracas, na minha estava o Bruno e o Gonza (arg), na outra o Gonza (bra), o Alex e o Marcião. Fomos sair das “carpas” as 04h00min da manha, sem precisar usar as head lamp, pois a lua fez tudo virar dia. Em duas horas chegamos a Berlim, entramos no pequeno refúgio e fizemos à primeira parada. O Marcião chegou um pouco depois acompanhado do Gonza (bra), ele estava um pouco cansado, mas ao mesmo tempo muito feliz, pois havia descoberto que o seu cume era exatamente até ali, demos um forte abraço nele e tocamos nossa história. Passamos por Piedras Blancas (6050m) as 06h30min, encontramos um grupo de japoneses e depois um grupo de espanhóis desistindo do cume, pois o vento estava muito forte naquela parte, o tornando assustador. As 08h30min chegamos a Piedras Negras (6.250m) e encontramos com o guarda parque argentino Aléxis que estava indo para o cume sozinho. O frio era sinistro, a dor de cabeça também. Subimos mais um pouco e encontramos um grupo que vinha pela Falsa Polacos, eles representavam à revista americana Outside, passaram por nós em um ritmo forte e vazaram pra cima. As 09h00min estávamos em Independência (6.400m), foi uma hora muito difícil, pois o nosso guia brasileiro havia declarado que iria ficar por ali, fiquei meio em choque, pois o Gonzalo (bra) me transmitia (e transmite) muita segurança em tudo, um cara muito prudente e responsável, escalador do qual tenho um respeito enorme, pois foi com quem compartilhei as cordadas até o cume do Pequeno Alpamayo (5.250m) na Bolívia. Mas ao mesmo tempo o entendi, ele estava muito cansado, antes da nossa equipe chegar a Mendoza ele já havia guiado um grupo até o base do Aconcágua, havia muito tempo que ele estava em atividade na Montanha. Como havia mais um guia conosco, ele achou melhor ficar por ali. Com isso, todos de nossa equipe deveriam seguir até o cume, pois se alguém desistisse no meio do caminho, acabaria tirando a oportunidade dos outros subir. Com a atitude do mais puro companheirismo e humildade o Bruno achou melhor voltar junto com o Gonzalo (bra), pois não queria ser o motivo que fizesse todos abandonar a tentativa de chegar lá em cima. Ali nos abraçamos, recebemos os mais nobres incentivos e nos despedimos continuando a subida rumo à travessia do Gran Acarreo. Viramos o colo de Independência e tomamos de cara uma rajada muito forte de vento. Nosso guia Gonzalo (arg) estava um pouco nervoso, pois toda hora nos cobrava mais rapidez na caminhada. Era muito difícil aumentar o rítmo, o ar realmente não existe, o frio era quase insuportável, chegávamos a cair devido à força do vento. Comecei há ficar um pouco nervoso devido às cobranças do Gonza, mas segurava as pontas, pois estávamos no tempo combinado. Atravessamos todo o Gran Acarreo e chegamos à base da Canaleta (6.650m) exatamente na hora prevista, às 11h30min. Ali meu companheiro Alex começou a sentir a ponta dos dedos da mão congelar, estava extremamente frio, ele começou a massagear a mão para ver se voltava seus movimentos, mas estava difícil, ele começou a ficar preocupado e até chegou a bater um desespero, logo nosso guia sacou um “Hot Hand” (produto químico que esquenta as extremidades do corpo) da mochila acalmando um pouco os nervos do Lekão.



EL CUMBRE
Estávamos exaustos, nos hidratamos um pouco e tomamos uma dose de carboidrato em gel, tiramos à garrafa térmica e a máquina fotográfica da mochila e partimos para os 312 metros finais. Um pouco antes do Filo Del Guanaco o Lekão já estava usando suas últimas forças, chegou a dizer que não iria subir mais, pedi ao Gonzalo que tivesse mais paciência e que fossemos mais devagar, pois só assim chegaríamos junto ao cume. Enquanto isso, uma expedição Italiana quase passa por cima de nós. Começamos a ir mais devagar. Caminho mais um pouco, paro e sento para descansar em uma pedra, quando olho para trás vejo uma imagem que só via em revistas e jornais, a minha frente estava ao vivo e a cores a bela Parede Sul, agora vista de cima, onde fui percebendo também que estava sentado bem no fim da Pala Messner, local onde termina uma das vias mais temidas do mundo e onde por pouco o Catão, o Othon e o Alexandre teriam passado. Logo comecei a sentir uma sensação estranha dentro de mim, não sabia o que era. Só no outro dia fui saber o nome desta coisa estranha. Sentia muita coisa ao mesmo tempo, eu estava a 100m do cume, minha vida inteira começou a passar em meus pensamentos, comecei a chorar sem conseguir parar, sentia um medo muito grande de acontecer alguma coisa errada, mas ao mesmo tempo vinha de dentro uma alegria muito forte, começo a ter a sensação da presença dos meus amigos e de minha família, chorava mais ainda, inicio de novo meus passos, olho pra traz e tento acreditar e tudo parece inacreditável... Parede Sul, cume a poucos metros, presença forte das pessoas que amo... daí vi que não tinha mais jeito, tive a certeza que chegaríamos lá em cima, dei o ultimo k-mon no Lekão e seguimos aos prantos para o ponto mais alto de toda América. Chegamos lá em cima nos 6.962m às 13h18min do dia 15 de Janeiro debaixo de um céu azul maravilhoso e acima de tudo que poderíamos imaginar. Vi o Santo Cruzeiro na minha frente e logo corri junto a ele, abraço meus amigos com muita força, agradeço muito a presença deles a meu lado. Agradeço também a Deus, onde fiz o último pedido de proteção para nossa longa descida. Acredito que eu não estava cabendo dentro de mim de tanta felicidade. Lá em cima, o vento havia parado um pouco de judiar, tudo parecia conspirar a nosso favor, mas eu ainda não havia parado de chorar, chorava numa intensidade estranha, muito maior que aquelas birras que fazia quando tinha que ir para escola. Tiro minha terceira camada de luva e começo a sacar fotos, faço um vídeo irado de 360º do cume, tudo era maravilhoso, vimos o Cerro Mercedário (6.770m) ao norte, o Cerro Plata (6.100m) a sudeste e o Oceano Pacífico a sudoeste. Foram nove horas e dezoito minutos de caminhada, uma das mais difíceis da minha vida. Começamos a descer às 14h30min, parecíamos que tínhamos asas nos pés, não sentíamos nada, só felicidade. Ligamos o rádio, demos a notícia a nossos companheiros, foi uma gritaria só. Chegamos a Nido às 20h30min, com todos os amigos pra fora das barracas, nos esperando muito emocionados. Logo nos levaram pra dentro das barracas e serviram um super purê de batata com atum e suco. Conversamos bastante e demos muitas risadas. Quando era umas 22h00min, fomos ver um dos mais belos por do sol da minha vida e caímos em um sono mais que merecido. Acordamos no outro dia sem acreditar muito no que tinha acontecido. Eu ficava toda hora olhando o visor da maquina fotográfica para ver se realmente era real o que tínhamos feito. Desmontando o acampamento, pergunto ao Gonzalo se ele já tinha sentido uma emoção tão forte e estranha quando se aproximava de algum cume, e ele me respondeu: “-há um fenômeno que acontece com muitas pessoas que estão prestes a atingir o topo de uma montanha, é uma mistura de sensações... são vibrações muito fortes que poucas pessoas sentem, elas ficam concentradas apenas nos altos das Montanhas, aqui nos Andes isto é chamado de Puno”. Humm, então comecei a entender o motivo daquilo tudo que tinha acontecido lá em cima.



A VOLTA
Começamos a descer de Nido as 14h00min rumo ao base. Minha mochila estava até o talo da litragem, pois desta vez não tinha porteador para ajudar ninguém. Descemos lentamente toda a Montanha. Sempre olhando pra tudo, pois sabíamos que seria pela última vez que estaríamos por ali, pelo menos naquela temporada. Olhamos para cima e comprovamos que a decisão de antecipar o dia da ascensão foi perfeita, naquele momento o cume estava sendo tomado por muitas nuvens pesadas. Chegamos ao refúgio e fomos recebidos com uma garrafa de champagne, havia muito tempo que eu não estava tomando bebidas alcoólicas, apartir dali tomei todas ... fizemos muita festa, todos que estavam no abrigo compartilharam conosco da nossa alegria, fiquei chapuletado muito rápido ... pois até então nunca tinha tomado um porre na altitude. No outro dia descansamos muito, lá fora nevava bastante, passamos a todos no Brasil as boas noticias através do telefone satelital do refugio. Combinamos de no outro dia subir o belo Cerro Bonete (5004m). Acordamos no outro dia bem cedo para tomar café e começar a caminhada para o Bonete. Conhecemos a Yuki, uma brasileira membro do CEB que estava fazendo o trekking até o base e a convidamos para ir junto com agente. Em 03h30min estávamos todos juntos no cume do Cerro Bonete vendo todo Cerro Aconcágua coberto de nuvens e de neve. Foi uma subida muito legal também. Apartir dali vimos que a nossa expedição estava chegando ao fim. Arrumamos nossas bagagens nas Mulas para no outro dia partirmos para Mendoza. No dia 19/01 em nove horas de caminhada estávamos na portaria do parque provincial do Aconcágua. Pegamos a van que nos levou para comer as tão sonhadas empanadas do Rock em Puente de Inca e tomar mais umas Andes geladas. Dali seguimos direto para a civilização. Dormimos em um hotel em Mendoza, onde ali cada um tinha um horário de volta. Despedimos-nos certos de em breve fazermos uma aventura pela Mantiqueira. Voltei até Buenos Aires com o Bruno, depois voei sozinho até São Paulo onde me esperavam com muita felicidade a minha Tia Rozarita, o meu tio Zé Carlos, a minha Mãe Gema, o Meu Pai Fabiano e a Luane minha namorada. Chegamos a Itajubá e veio à surpresa, todos meus amigos estavam lá em casa, na maior festa, todos com camisetas personalizadas do Aconcágua. Ali passamos o Domingo inteiro nos divertindo e contando cada detalhe da aventura. Todos ali me perguntavam o que eu iria querer fazer da próxima vez, qual cume tentaria subir, na mesma hora eu respondi a todos que um sonho muito antigo havia sido realizado e que agora eu não teria motivo de almejar subir uma outra Montanha sozinho, a não ser que eu fosse acompanhado pelos meus queridos companheiros da Mantiqueira, pois o que eu mais quero agora é poder proporcionar a experiência que eu vivi lá com todos os amigos que realmente amam as Montanhas. Que um dia, tenhamos a oportunidade de todos irmos juntos até lá em cima !



Obrigado a todos pela energia e pela força transmitida ! Obrigado também a Unimed Itajubá, a Grade VI e a Triboo! que acreditaram no nosso trabalho.

Saudações da Mantiqueira,
Orlando Mohallem.
30/01/2006