sábado, 20 de setembro de 2008

Cordillera Blanca

ESPETACULAR é o que resume a nossa viagem ao Peru.
Partimos do Brasil, Orlando e eu, para nossa lua de mel no dia 23/07/08, quarta-feira, rumo a Lima, onde logo que chegamos ao aeroporto fomos recepcionados pelo Osvaldo que já nos aguardava para nos levar até o hotel.

Foto 01: Vista do Oceano Pacífico

No dia seguinte, 24/07, acordamos cedo para tomar nosso café e deixar tudo preparado para pegarmos nosso ônibus para Huaraz, cidade muito procurada por montanhistas do mundo inteiro. Saímos do hotel as 12h acompanhados pelo Pablo que foi nos buscar e nos levou até a agência de ônibus BusMóvel para pegarmos nossa passagem e partir as 13h para Huaraz.
Chegamos nesta agência por volta de 12:30 e foi então que percebemos que havíamos esquecido nossa mochila de ataque com as máquinas fotográficas, livros e outras coisas que estavam dentro dela no hotel. Pegamos um taxi de volta para hotel com apenas 20min de tempo para chegar até lá, pegar a mochila e atravessar um bom pedaço da cidade de volta para a agência.
Foto 02: Na estrada para Huaraz

Quando pegamos o taxi, do Sr Juan, ele havia dito que conseguiria fazer o trajeto em tempo de voltar para pegar o ônibus das 13h, mas, quando no caminho ele pediu que eu tirasse um guia de sei lá quantas páginas da cidade de Lima de dentro do porta - luvas ... foi então que não sabíamos se começávamos a rir ou a chorar ... iríamos perder o ônibus! Foi então que por um milagre o Orlando lembrou que tinha pegado o cartão do hotel e justamente atrás dele tinha um mapa de como chegar ... mas milagre ainda foi que quando ele pegou o cartão e mostrou ao Sr Juan estávamos perdidos praticamente na rua do hotel e então conseguimos resgatar a mochila e chegar a tempo de pegar o ônibus das 13h! O ônibus nos surpreendeu! Era de 2 andares e nossa reserva havia sido feita no banco da frente do andar de cima.
Foto 03: Cidade de Huaraz

A paisagem era deslumbrante! Seguimos para o Norte, paralelo com o Pacífico à esquerda e, um deserto cheio de dunas à direita. Durante a viagem íamos cortando alguns povoados que viviam exclusivamente da agricultura. Após 300Km tomamos o sentido leste rumo a Cordilheira onde cortamos vales e subimos até 3800m entre montanhas que começavam a erguer-se. Chegamos em Huaraz ás 21h e fomos muito bem recebidos pela Raquel que nos levou até o Alfredo Hostal onde chegamos e dormimos do jeito que estávamos sem comer nada

Foto 04: Centro de Huaraz

No dia seguinte, 25/07, vimos as primeiras montanhas geladas entre as nuvens em um sol tímido. Recebemos a visita do Sérgio onde combinamos de irmos após o almoço em sua agência para acertarmos os últimos detalhes da nossa caminhada. Neste meio tempo saímos para andar no centro da cidade onde estava acontecendo o desfile de comemoração do dia da independência do Peru. As ruas estavam todas lotadas para prestigiar o desfile. Notamos que os peruanos são bem patriotas, pois tanto em Lima quanto em todas outras cidades que passamos até chegar a Huaraz, todas as casas estavam enfeitadas com a bandeira do Peru para comemorar a independência.
Foto 05: Luane, Dina, Serginho e Sérgio na agencia Nuestramontana

Durante a tarde passamos na agência, acertamos todos detalhes, conhecemos nosso cozinheiro, voltamos ao hotel para arrumar todas as coisas ansiosos para nossa partida a Cordillera Blanca.
No dia 26/07, sábado, acordamos cedo para tomar nosso café e já fomos para a agência onde todos já nos esperavam com tudo pronto para sairmos. Viajamos durante três horas aonde vimos toda ou quase toda Cordilheira Negra, o Nevado Santa Cruz (6259m) e também fizemos uma parada para tirar fotos do lindo Huascarán (6768m) que estava completamente limpo em um céu muito azul.
Foto 06: Cidade de Huaraz e Huascarán (6768m)

Chegamos em Cashapampa e iniciamos nossa caminhada aproximadamente 12:30. Começamos subindo um aclive em ziguezague beirando uma bela corredeira de degelo e grandes falésias e escarpas rochosas. Após 3h de caminhada começamos avistar as montanhas nevadas da Cordillera Blanca.
Foto 07: Nevado Santa Cruz (6259m)

Com 5h de caminhada chegamos ao nosso primeiro acampamento em Llamacorral (3760m), um vale cercado de belas montanhas como o imponente Taulliraju (5830m) que estava carregado de nuvens negras onde não demorou muito para trazer a chuva.
Foto 08: Inicio da caminhada na Cordillera Blanca

Nos protegemos embaixo de alguns blocos de rocha quando começou a chuviscar, pois como começamos a caminhada na frente de nossos muleiros, eles ainda não haviam chegado com nossas coisas. Passando alguns minutos eles chegaram e nossa sorte foi que quando acabamos de montar nosso acampamento e colocarmos as coisas dentro da barraca a chuva chegou pra valer!
Apesar do céu coberto por nuvens negras a chuva não durou mais que uma hora e meia, assim saímos de nossa barraca e fomos unir ao nosso guia Octávio em nossa barraca refeitório para saborearmos uma deliciosa sopa de legumes com ovos, um prato de arroz, truta, batata frita, tomate, pepino, uma salada de frutas com leite moça e para finalizar o tradicional chá! Depois de este belo jantar preparado pelo nosso super cozinheiro Roman, fomos dormir.
Foto 09: Roman, nosso cozinheiro, e nossas coisas

Foto 10: Quebrada Santa Cruz

Foto 11: Primeiro Acampamento (3760m)

Acordamos 6:50 no dia seguinte, 27/07, domingo, tomamos nosso super café da manhã com direito a omelete, pães, geléia, iogurte, cereais, chá, leite .... e partimos para mais um dia de caminhada. Continuamos caminhando pelo mesmo vale onde a cada passo que dávamos eu me deslumbrava cada vez mais ... não conseguia acreditar no que meus olhos podiam ver ... estava tudo sendo mágico para mim pois a cada minuto uma imponente montanha gelada se revelava em minha frente como o Caraz (6020m), o Santa Cruz (6259m) ...

Foto 12: Lago Jatuncocha e Taulliraju (5830m) ao fundo

Começamos a ganhar altitude e chegamos a duas maravilhosas lagunas verde-turquesa a 4000m que são Ichiccocha e Jatuncocha, nomes que significam laguna pequena e laguna grande em Quéchua.

Foto 13: Otavio, Orlando e Luane

Paramos para tirar algumas fotos e conhecemos um grupo formado por 3 brasileiros, 2 austríacos, 1 australiano e 1 peruana. Continuamos nossa caminhada ganhando cada vez mais altitude tendo uma vista privilegiada do Quitaraju (6034m) onde rumamos ao caminho que conduz ao acampamento base do famoso Alpamayo (5947m) e tivemos uma bela vista da sua face sudeste onde ficamos por um bom tempo deitados apenas admirando sua beleza.
Após aproximadamente 40min de contemplação continuamos nossa caminhada devido ao frio que estava fazendo principalmente quando as nuvens nos roubavam o tímido sol que nos esquentava um pouco mais.

Foto 14: Nevado Santa Cruz (6259m)
Após aproximadamente 7h de caminhada chegamos a Taullipampa (4200m) onde montamos nosso segundo acampamento com uma vista perfeita do Taulliraju (5830m) e do Artesonraju (6034m), montanhas de nível técnico para sua ascensão e que já tirou vidas de muitos alpinistas.
Chegamos por volta das 15h no segundo acampamento, onde descansamos bastante para o dia seguinte.
Foto 15: Octavio, Orlando e Luane com o Alpamayo (5947m) ao fundo

Foto 16: Segundo Acampamento (4200m)
Acordamos bem cedo, dia 28/07, segunda-feira, tomamos nosso café e demos inicio ao nosso terceiro dia de caminhada. Estava bem frio e a cada passo que dávamos ganhando altitude parecia que esfriava mais. Subimos até o passo de Punta Union a 4750m onde tivemos uma vista linda de todo o vale por onde percorremos e uma pequena laguna aos pés do Taulliraju. Após virar este passo começamos a uma longa descida atravessando a zona sul da Cordillera Blanca onde toda a paisagem se transforma em um vale verde lindo! Passamos a avistar a face sul do Taulliraju e a face oeste do lindo Chacraraju (6112m).
Foto 17: Artesonraju (6034m)

Neste dia a caminhada foi extremamente cansativa, caminhamos por cerca de 8 horas ganhando altitude até 4750m e depois descemos para 3700m até aos arredores do povoado de Cocalbamba. Neste acampamento foi mais tranqüilo por ser mais protegido do vento, porém fez muito frio porque estávamos perto da água.

Foto 18: Nevado Quitaraju (6034m)

Foto 19: Glaciar do Taulliraju (5830m)

Foto 20: Todo vale percorrido com lago Jatuncocha ao fundo

Foto 21: Passo de Punta Union (4750m)
No quarto dia, 29/07, continuamos a nossa caminhada um pouco mais tarde porque seria mais curto o percurso, porém não mais tranqüilo porque começamos a subir de novo ganhando altitude até 4200m em Pachapampa onde faríamos nosso acampamento.

Foto 22: Vista do Taulliraju do terceiro acampamento
Durante o caminho passamos pelo povoado de Cocalbamba onde há muitas crianças que ficam te pedindo bala, chocolate ... o que você tiver! Fiquei com muita pena deles e prometi que um dia volto lá com um saco de balas só para dar para eles!
Foto 23: Nevado Chopicalqui (6354m)

Passamos pelo posto de controle do Parque do Huascaran e começamos a subir passando pelo povoado de Vaquería a 3400m onde avistamos o grupo dos brasileiros que ali encerravam suas caminhadas e aguardavam pelo transporte que os levariam de volta a Huaraz.

Foto 24: Roman, Octavio e Orlando

Nós continuamos a caminhada e começamos a ganhar altitude até chegarmos ao nosso acampamento a 4200m, com algumas paradas para almoço e descanso. Neste dia dormimos com uma vista privilegiada do nevado Chopicalqui (6354m), uma montanha muito difícil de subir devido as exigências das técnicas verticais por ser uma montanha mista (rocha e gelo). Também tínhamos uma vista do nevado Yanapaccha (5326m) e parte do Huascarán (6768m).

Foto 25: Nevado Chacraraju (6112m

Quinto dia, 30/07, continuamos nossa caminhada por uma trilha que cortava em vários trechos uma estrada de terra por onde passavam carros e ônibus. Foi bastante cansativo este trecho pois estávamos ganhando altitude para chegarmos ao próximo passo de Portachuelo de Llanganuco a 4800m por um caminho bem pedregoso, sinuoso e com subidas fortes.

Foto 26: Descida para Llanganuco com Huascarán entre as nuvens

Quando chegamos na virada de Portachuelo ficamos impressionados com a beleza e a imponência de tantas montanhas que ali podíamos avistar, inclusive o Huascarán que é a maior montanha Peruana. Foi exatamente neste local que conseguimos ver pela primeira vez nosso grande objetivo que era o Nevado Pisco, 5753m. Fiquei completamente deslumbrada com toda aquela vista e com todo o respeito que aquelas montanhas impõem a qualquer mortal que ousa aproximar delas. São montanhas enormes, geladas, duras para enfrentá-las e que guardam em suas encostas muitas vidas de quem um dia tentou desafiá-las.

Foto 27: Orlando, Roman (cozinheiro), Octavio (Guia de montanha), Luane, Pedro e Dora (Muleiros)

Partindo deste passo começamos a descer para Cebollapampa (3900m), onde montamos nosso acampamento e ficamos 2 pernoites para descansarmos e nos prepararmos para atacar a montanha que tanto esperávamos, o Nevado Pisco.

Foto 28: Quinto acampamento, descanso !

Chegamos ao base do Nevado Pisco a 4700m no dia 01/08, sexta feira, fazendo bastante frio e todos nós, Orlando,Octávio e eu com resfriado e com um pouco de dor de garganta. Mas nada que um chá de coca com limão e algumas doses homeopáticas de própolis não nos fizessem ficar melhor.

Foto 29: Nevado Pisco (5753m)

O base do Pisco é também base de outras grandes montanhas como o Huandoy, uma montanha mista com mais de 6000m, bastante perigosa e que mostrava para nós sua imponência com barulhos assustadores de grandes avalanches.

Foto 30: Acampamento base do Nevado Pisco a 4700m

Combinamos que faríamos nosso jantar a 1h para sairmos as 2h rumo ao Pisco.
No acampamento havia algumas barracas de uns franceses e outro grupo que não sabíamos sua nacionalidade, mas também, um pouco mais acima do base, existe um refúgio de uns italianos que abrigava algumas pessoas.

Foto 31: Ataque ao Nevado Pisco - 2h

Por fim, as 2h começamos nossa caminhada ao Pisco. Começamos a subir por um caminho pedregoso rumo ao passo chamado Morena, 4900m, em uma trilha que com as botas duplas fica bem fácil de escorregar pelas pedras. Depois de subirmos começamos a descer entre grandes blocos de rocha onde tínhamos que ir pulando e tomando muito cuidado para não levar uma pedrada na cabeça porque acima muitas pedras soltas iam caindo.

Foto 32: Vista de Orlando e Otavio para o Chacraraju

Passado umas 3h de caminhada entre muitos blocos para pular e rochas soltas comecei a sentir muito calor devido ao tanto de roupa térmica que havia colocado com medo do frio ... com isso, não deu outra, transpirei tanto que minha pressão baixou e foi a hora que decidi que não ia mais continuar. Após algumas insistências para continuar, foi quando o Orlando iluminou meu rosto e percebeu que eu estava muito pálida que já aos 5000m a melhor decisão era eu voltar, pois poderia piorar mais acima.

Foto 33: Otavio no glaciar do Pisco

Então, Orlando e o Octávio esconderam suas mochilas e me acompanharam até ao alto da Morena, onde já se podia avistar o acampamento base e assim eu teria condições de voltar sozinha. Insisti que eles continuassem, pois sabia que eu ficaria bem.

Foto 34: Paredes de gelo na subida do Nevado Pisco

Já eram 5h e o dia começava a clarear, fiquei ali sentada sozinha no alto da Morena, muito triste por não ter realizado um sonho que era chegar no cume de uma alta montanha ... mas ao mesmo tempo muito feliz porque até onde havia chegado já tinha sido impressionante.

Foto 35: Otavio e Orlando no cume do Nevado Pisco (5753m)

O dia cada vez chegando mais e eu admirando gigantes montanhas como o Huandoy, Chopicalqui, Huascarán e o próprio Pisco, que me deu forças para continuar a descer para o base. Nesta paisagem as energias são tão fortes que renova qualquer montanhista, e, foi aí que realmente entendi que não é sempre que vc vence o poder da natureza para alcançar seus objetivos como chegar no topo de uma montanha. A montanha impõe seu respeito, e é preciso saber entender quando ela te diz para voltar, para desistir . Mas quando você volta e olha pra trás ela também diz pra você não achar que não é capaz !

Foto 36: Luane e Orlando

Chequei ao acampamento e fiquei o dia todo esperando pela volta dos dois, e no final da tarde enquanto tomava um chá com nosso cozinheiro Roman sentimos que eles voltavam, assim saímos correndo da barraca e só foi alegria com muitas lágrimas de felicidade, pois eles haviam voltado... do cume do Nevado Pisco!!! No dia seguinte descemos direto para Cebollapampa onde uma Van nos buscou para voltarmos para Huaraz.

Foi a experiência mais impressionante que tive na vida, e com isso voltamos pra casa com a certeza que o meu cume gelado ainda vai chegar!

Por Luane Maia Mohallem, 24/09/2008