terça-feira, 25 de agosto de 2009

Expedicion Tetera

Conhecer a Cordillera Blanca nos Andes Peruanos era um sonho de um grupo de amigos! Sendo assim, organizaram uma expedição para realizar o trekking de cinco dias da Quebrada Llanganuco a Santa Cruz.

Carretera Panamericana litoral do Pacifico

Saímos de Itajubá MG na madrugada do dia 10 de Julho rumo a Lima capital do Peru. De lá, após 450 Km de deserto entre litoral (areia) e interior (rochas) chegamos em Huaraz (3100 m) quando já era noite. A primeira diferença que sentimos em Huaraz foi o cansaço provocado pela altitude quando subimos os 5 andares de escada do hostel em que nos hospedamos.

Huascarán visto do Hostel

Ainda na primeira noite, em meio a muita buzina, a grande pergunta que nos fazíamos era: como seria o visual das montanhas ao redor da cidade? Logo no café da manhã tivemos a resposta, a mesa estava posta no último andar do hostel, em um ambiente de vidro onde se podia avistar o grande Huascarán (6768), o Chequiaraju (5286), o Hualcan (6122), Urus (5495), Vallunaraju (5686) entre outros maravilhosos nevados. Confesso que Ficamos sem saber pra qual olhar e admirar.

Huascarán visto do Hostel

Depois de um café da manhã fomos logo procurar o pessoal da agência que tínhamos contratado daqui do Brasil pra que pudéssemos agendar nossa primeira atividade na Cordillera, fomos muito bem recebidos e informados de que poderíamos descansar e conhecer Huaraz naquele dia e que no dia seguinte por volta das 9:00 horas sairíamos pra uma aclimatação na Laguna Churup (4450 ).

Base do Nevado Churup 5495 m


Após umas 4 horas de caminhada tendo como visual o nevado Huamashraju (5434) e de uma escalaminhada ao lado de uma cachoeira de desgelo chegamos a Laguna Churup, onde sacamos várias fotos, lanchamos e retornamos a Huaraz.


Parte do Huamashraju

Escalaminhada ao lado de uma cachoeira de degelo

Laguna Churup 4450 m

Durante a descida uma surpresa, havíamos passado muito tempo na altitude e alguns integrantes da expedição não estavam se sentindo muito bem, chegando a Huaraz foi tomada a decisão de que o trekking seria cancelado em virtude da não adaptação de alguns na altitude. A solução foi reorganizar a expedição para que todos pudéssemos aproveitar os atrativos do lugar. Depois de analisar as possibilidades decidimos que Dupas, Francisco e Ricardo formariam um grupo e André e Wilmer outro.

Nevado Churup 5495 m

Descida venenosa da Laguna Churup

Dia seguinte partimos todos para mais uma aclimatação, na Quebrada Llaca (4000) aos pés do Ranrapalca (6162), Ocshapalca (5888) e Vallunaraju (5686). Bem ali funciona o Centro de Formação de Guias de Montanha. Passamos a tarde escalando uma enorme parede de granito ao lado do glaciar.

Glaciar do Ranrapalca 6162 m

Depois de um lanche já à tarde com sopa, torradas e muito chá de coca, um momento difícil: é hora de nos despedirmos, a partir de agora André Garcia e Carlos Wilmer tentariam alcançar o cume do Vallunaraju enquanto os outros desceriam a Huaraz a fim de se aventurarem praticando outros esportes radicais. Faziam também parte de expedição o guia de montanha Beto e o cozinheiro portador Carlos.

Via Clássica do acampamento base do Vallunaraju
Por ali passamos a noite, muita conversa, chá e trocas de experiências, Beto nos advertia que o Vallunaraju era uma montanha completa, pois era alta, com fendas e gretas, exigiria uma condição física e psicológica muito boa e que no final tinha uma aresta intimidadora e que se algum de nós tivesse algum tipo de vertigem não deveríamos subir, disse que aquela montanha seria mais difícil que o Aconcágua o que nos deixou um pouco assustados.
Ranrapalca 6162 m

Dormimos cedo, pois sabíamos que o dia seguinte seria árduo, diferentemente de algumas montanhas onde mulas carregam os equipamentos, aqui teríamos que carregar todo peso até o acampamento avançado já na transição entre rochas e glaciar “Morenas”. Depois de muito esforço e três horas de caminhada forte começamos a avistar muito gelo nas encostas rochosas, sinal que estaríamos chegando.

Acampamento avançado Morenas

Montamos acampamento em meio a muito frio, pois o forte vento fazia com que a temperatura despencasse a cada momento. Aproveitamos a tarde pra descansar e ajustar os equipamentos que seriam necessários pra alcançar o cume. Às 18h30min jantamos, e ficou acertado que sairíamos às duas da manhã pro ataque ao Vallunaraju. Foi uma noite fria e ansiosa, que se procurava pensar nas possibilidades que poderiam acontecer na montanha, era a primeira vez que experimentávamos escalar uma alta montanha e o frio na barriga era inevitável. Lembro-me de acordar por volta das 23h e ver o André massageando os pés dizendo que estava preocupado porque embora estivesse usando meias especiais seus pés não estavam esquentando, disse pra ele continuar com a massagem e tentar mover os dedos a fim de esquentá-los, deu certo, e assim ficamos, até às duas da manhã, quando Beto nos chamou dizendo que o chá estava pronto. Enchemos as garrafas com chá de coca e água caliente e partimos.
Acampamento avançado Morenas

Caminhamos por mais uns 20 minutos até a entrada do glaciar, onde ficamos encordados e iniciamos a caminhada no gelo. Finalmente podia escutar o barulho dos granpões em contato com o gelo, céu estrelado, lanternas na cabeça e montanha arriba, era o começo da realização de um antigo sonho, lembro-me que durante a caminhada passou muita coisa pela minha cabeça, pensava na família, namorada e amigos, lembrava a todo o momento da frase de nosso guia Beto dizendo logo que entramos no glaciar: “a partir de agora somos uma equipe, se um desistir todos voltaremos”, senti uma tremenda responsabilidade, pois não poderia decidir só por mim, a decisão de cada um serviria pra todos....é ...pensei comigo, estou em uma alta montanha...

Glaciar do Vallunaraju

E assim continuamos, a lanterna batia no gelo e refletia estrelinhas, iguais as que via no céu, e aquilo me alucinava, perguntei a André se ele estava vendo o mesmo que eu, ele disse que sim, então fiquei mais tranqüilo. Caminhamos muito e quando o cansaço batia em meio a pendentes íngremes parávamos para descansar. Em uma dessas horas, olhei pra trás e vi André outra vez massageando os pés, perguntei se estava tudo certo com ele, meio assustado, disse-me que estava com muito frio nos pés mais estava sobre controle, então continuemos. Mais um pouco arriba era minha polaina que estava se soltando, fomos obrigados a parar e ajustá-la, nisso, tirei minhas luvas e quando percebi minhas mãos estavam muito frias, coloquei as luvas o mais rápido que pude e enquanto caminhava ia movimentando os dedos afim de aquecê-los, deu certo, ufa...

Vista do cume sul do Vallunaraju

Quando o dia foi amanhecendo é que pudemos ver onde estávamos, que lugar lindo, o gelo ia mudando de cor de acordo que o sol ia nascendo, variando de púrpura a azul....alucinante....

Cume sul do Vallunaraju

A 100 metros do cume o cansaço bateu, ainda restavam duas pendentes muito íngremes e a tal aresta, foi então que Beto parou perguntando-me se poderia esperar ali, enquanto ele e André fariam o cume em meia hora e voltavam para me pegar. Tive que tomar uma decisão rápida, não queria desistir ali tão próximo do cume, mais sabia que estava cansado e que poderia prejudicá-los na ascensão. Tomei a decisão certa, falei a ele que queria tentar e que se fosse um pouco mais devagar chegaria a qualquer lugar.

Uma “carretera” pro cume!

Vencida as pendentes chegamos numa vertente que dividia o cume do Vallunaraju em dois, e a aresta estava lá, e com ela as famosas cornijas, gelo fofo que se acumulam na ponta das paredes dando uma falsa impressão de que é sólida mas não é e um passo sem prudência representa uma queda. Sabia que ali era o momento de usar a ultima reserva de força e com muito esforço às sete da manhã Beto (guia), Eu (Carlos Wilmer) e André Garcia chegamos ao cume do respeitado Vallunaraju (5686 m).

Aresta final e as cornijas
Aresta final
Ficamos no cume por um bom tempo, fiquei muito emocionado de fazer minha primeira alta montanha, agradeci a Deus, aos meus pais que partiram a pouco e a todos os amigos e familiares que me apoiaram nesta aventura , era inacreditável poder ver aquelas montanhas enormes do meu lado.

André Garcia e Carlos Wilmer no cume do Vallunaraju 5686 m

Quando descemos é que vimos a verdadeira beleza do lugar, chegamos ao fim do glaciar, tiramos os equipamentos e caminhamos até o acampamento avançado das morenas, onde Carlos já havia descido e levado com ele grande parte dos equipamentos, arrumamos nossas coisas e descemos também, depois de algumas horas de forte descida chegamos na carretera onde um taxi nos aguardava pro retorno a Huaraz.
Ao fundo o imponente Huascarán 6768 m

Os agradecimentos vão pra todos que fizeram com que essa aventura se realizasse aqui e no Peru, nossa pátria irmã.

Assim deveria caminhar a humanidade!

Cume leste do Vallunaraju

Segurança é importante...
Grandes gretas atraem para dentro da montanha os mais desatentos.

Ual até Bob Dilan em Huaraz!

Missão cumprida !
Por Carlos Wilmer Costa
Fotos: André Garcia Chiarello, Carlos Wilmer Costa

2 comentários:

Anônimo disse...

Ao meu amor Carlos Wilmer Costa, meus parabéns por mais esta conquista...Te amo! Moema

luciana disse...

Valeu Lemão, André e família Dupas. É assim que se forma uma verdadeira equipe, em momentos irados.....parabéns por mais essa conquista.
Marcião (Lucélia-SP).