terça-feira, 31 de agosto de 2010

Andes Bolivianos

Desde o início da minha história na escalada em rocha, almejava a oportunidade de escalar uma alta montanha. Sentir o que realmente era estar numa zona onde a altitude dita as regras a cada passo a passo. Há seis anos, passei a fazer parte da família Triboo Montanhismo, a convite de Orlando Mohallem, parceiro que me motivou de todas as maneiras a concretizar meu sonho de fazer um cume fora do pais.

Chá de aeroporto em Assunção no Paraguay

Sempre falava em ir para os Andes, mas sempre desviava minha atenção por vários motivos, um deles era a falta de verba para isso. Um pouco antes do final do ano passado, Orlando me intimou que em Julho deste ano iríamos encarar uma das mais belas montanhas da Bolívia, o grande Huayna Potosi, 6088 metros de altitude.
El Alto com Illimani ao fundo 4.100m

Fiquei maravilhado com a proposta e com frio na barriga desde então. Sair do Brasil para tentar um pico com mais de 6000 metros na primeira vez, era motivo de sobra para ficar na adrena.

Huayna Potosi visto da cidade de El Alto

Não acreditei muito no começo. Tinha muita coisa para resolver e uma delas era o dinheiro para realizar a viagem. Mas como Deus não nos desampara, minha esposa Ana Paula fez de tudo para me ajudar, e juntos , conseguimos o que eu iria precisar.
Estrada do altiplano boliviano

Empresta daqui, empresta dali e com tudo arrumado e passagem comprada, estava decretada a viagem. Treinei e me informei bem onde iria pisar. No dia 18 de Julho, seguimos para São Paulo, onde encontramos com Paulo Heitor e Mário Caponi, amigos que iriam dividir esta tão sonhada viagem.

Cerro Condoriri 5648m

Frio na barriga logo no aeroporto, nunca tinha entrado num avião. Mas tudo bem, é bem melhor do que andar de ônibus. Voamos para o Paraguay primeiro, onde tomamos um chá de cadeiras daqueles.
Posto policial boliviano

Cinco horas e até que enfim, chegou nosso avião para seguirmos rumo a La Paz, Bolívia. Chegando em El Alto, já senti de cara a altitude. Estávamos a 4100m, sendo que saímos do Paraguay a poucos metros do nível do mar.
Pessoal registrando a Cordillera Real

Mas eu estava bem e confiante de que não iria passar mal e ter que voltar para casa. Fomos para La paz, para nosso hotel. Chegamos as 04:00 da manhã no hotel e recebemos uma visita inesperada do nosso amigo Carlos Azevedo, que tinha feito o cume do Pequeno Alpamayo. Uma visita que deixou Orlando e eu muito motivado.
Illampu 6.368m

No café da manhã do hotel, encontramos com o resto da equipe que já estava por lá nos aguardando para darmos início aos preparativos para o Huayna Potosi.

Sr. Sussumo, Paulo Heitor, Edna, Carlos, Marcelo, Juliano
Mario Caponi e Orlando


Aclimatação é o principal para se ter sucesso. Fomos visitar logo pela manhã as ruínas de Tiwanaku. Passamos o dia por ali impressionados com este pedaço da história. Muitas fotos e assuntos fizeram nossa equipe unida desde o começo.

Entrada das ruinas de Tiwanaku

O grupo estava formado, Sussumo, Francisco, Marcelo, Edna, Mário Caponi, Paulo Heitor, Carlos Santalena, Orlando Mohallem e eu Juliano Ribeiro. Eu estava entusiasmado com tudo que via. País diferente, montanhas cobertas de gelo, cultura, novas amizades. Perfeito. Voltamos para La Paz e fomos comer num restaurante próximo ao hotel. Para se chegar ao restaurante já foi um sufoco, subidinha difícil. Nesta altitude tudo tem que ser bem lento se não, o bixo pega.
Vaucher de entrada

No dia seguinte, dia 20, ficamos pela cidade. Fui conhecer um pouco da cultura, do artesanato e muitas outras coisas curiosas aos meus olhos. Sentia-me contente demais com tudo que via. Até o transito caótico da cidade me encantava. Nunca tinha ouvido tanta buzina e gritaria no trânsito.

Vários ônibus antigos dão um charme todo especial nas ruas de La Paz. Durante todo o dia sempre preocupados com hidratação. Neste dia, arrumamos nossas mochilas e ficamos prontos para no dia seguinte seguir para o campo base do Huayna Potosi a 4800 metros de altitude.
Ruinas do povoado

Esta expedição estava sendo conduzida pelas empresas Altitud6000 e Grade6. Todos muito bem preparados para o desafio. Jantamos e fomos dormir cedo para estarmos bem descansados para encarar a subida até o acampamento base do Huayna. Esta aproximação é feita de carro e então, você sobe muito rápido, forçando muito seu corpo a esta altitude. No dia 21, depois de um belo café da manhã, nos reunimos na recepção do hotel para esperar nosso transporte. Tudo muito bem organizado pelo pessoal da Altitud6000.

Juliano fazendo pose

Seguimos para a montanha. A expectativa era grande. Eu iria pisar no gelo pela primeira vez. Na estrada observávamos constantemente as montanhas da Cordilheira Real. Varias montanhas de 6000 ao nosso lado. Já mirando um próximo cume. Muitas fotos. Mirantes alucinantes.
Kalasasaya

Nossos guias sempre dando direções onde ficava o que naquela imensa cordilheira. Muitas histórias de escalada. Viagem recheada de emoção. Sentia-me uma criança no parque. Nossa equipe estava muito bem.

Subimos e logo eu já observava o gelo ao longo da estrada. Cada vez mais alto, cada vez mais gelo. Fizemos uma parada em um cemitério a beira da estrada, bem de frente ao nosso objetivo. Estranho este lugar, mas sem motivo para desestimular os pretendentes a escalar a montanha, até porque a história deste local não tem nada a ver com as escaladas na região.

Dia de aclimatação

Seguimos e logo chegamos ao campo base do Huayna Potossi a 4800 metros. Sentia-me muito bem e a vontade de subir aquela montanha só aumentava. Pisei no gelo pela primeira vez, hô coisa boa. Chegamos todos bem a esta altitude. Foi maravilhoso poder contemplar tanta beleza.

Trombeta Inca

O Huayna era imponente visto do campo base. Imponente e convidativo. Ficamos no abrigo e tinhamos um lugar reservado para dormir muito bem acomodados junto a escaladores de diversas partes do globo. Ótima comida e muitas canecas de chá nos fortaleciam durante nossa aventura. A organização por parte da Altitude6000 era muito profissional. Sentia-me confortável ao lado de pessoas com tanta experiência e sempre disposta a te ajudar.
No dia 22, fomos levados para nosso dia de treino no glaciar, aos pés da montanha para realizarmos técnicas de escalada em gelo e progressão em glaciar. Este dia foi um presente, estava tão empolgado que não queria nem saber de guardar energia para subir a montanha.

Escalava e descia varias vezes as paredes. Foi um grande esforço a esta altitude,mas eu estava curtindo demais tudo o que aprendia. Passamos o dia neste glaciar e no final voltamos bem cansados para o abrigo. Mais chá e mais comida boa era servida por Simon, nosso cozinheiro e guia. Muitas gargalhadas a mesa encerraram este grande dia cheio de novidades.

Cerro Condoriri 5648m

A noite era fria e o vento castigava tudo la fora. Eu estava ansioso para o próximo dia chegar. Depois do café iríamos subir até o Camp Rock a 5130 metros de altitude. Dia 23, como sempre o dia estava lindo, sem uma nuvem no céu e sabíamos que nosso ataque ao cume seria debaixo de uma lua cheia que daria um ar mágico a nossa expedição. Mochilas preparadas, equipe reunida e lá fomos.

Chê de Ferro Velho

Passos curtos e várias paradas para retomar o fôlego. Subida bem acentuada até Camp Rock. Uma paisagem para la de alucinante se abria a cada passo. Fotos e contemplação. Eu não estava acreditando no que via, minha emoção era grande demais. Ar rarefeito, gelo, frio... Tudo era novo pra mim.

La Paz 3.700m e Illimani 6.462m

Chegamos bem a 5130 metros e logo nos alojamos no abrigo, onde Simon já tratou de arrumar um belo almoço para todos. Neste abrigo muitas pessoas circulam por ali se preparando para fazer o cume ou se arrumando para descer da montanha. Ficamos hidratando e descansando, arrumando nossos equipamentos e mochilas para na madrugada seguinte, dia 24, atacar o cume do Huayna.

Igreja de São Francisco no centro de La Paz

Eu já sabia que não iria ser fácil, pois já sentia o peito bem mais apertado neste ponto e a escalada era longa e cansativa. Muito assunto nos envolvia neste lugar. Pessoas de vários países estavam por ali se preparando como nós para seguir para o topo. Passei o dia olhando para o topo da montanha tentando me ver la em cima. Pedia muito para Deus me guardar e a minha equipe para que nossos planos e sonhos se concretizassem.

Um lugar de beleza ímpar. Estávamos aos pés da montanha numa altitude que proporcionava um belo visual. O grupo estava muito bem com exceção do Sr Sussumo que sentia fortes dores de estômago e já tinha decretado que ficaria no abrigo esperando o restante tentar o cume. Eu estava sentindo a altitude, falta de ar, um pouco de dor de cabeça, mas nada sério. Minha moral estava alta e só pensava no sucesso.

Partida para o base camp do Huayna

Na madrugada, por volta da 01:00 da manhã, já estávamos tomando nosso café e ajeitando o que faltava para sairmos para o cume. As 02:00 da manhã, dia 24, saímos todos, menos Sr Sussumo, que nos aguardaria no abrigo. Seguimos para o glaciar, onde colocamos nossos crampons e nos encordoamos.

Galera no buzão

As cordadas prontas seguiam passo a passo, todos concentrados nas passadas que soavam no gelo duro. Era noite de lua cheia, o brilho da lua no gelo era fascinante. O tempo estava limpo e sem uma nuvem e a visibilidade era muito boa. A altitude e o esforço a 5700 metros começaram a fazer efeito em nossa equipe. Paulo acabou não se sentindo bem , atacado por uma dor de cabeça muito forte, teve que baixar. Foi muito triste para todos nós, mas Paulo sabia de seus limites e nos deixou tranquilos de que o cume para ele já estava alcançado e que era para subirmos firmes, pois estaria junto com Sr Sussumo, esperando nosso regresso.

Juliano, La Paz e Illimani

Assim seguimos montanha acima, debaixo de luar formidável. Nosso Objetivo era estar no cume por volta das 10:00 da manhã, mas a subida era grande e muito desgastante. Eu estava me sentindo muito cansado e mesmo andando devagar parecia que meu ritmo estava muito acelerado, mas seguia muito focado no propósito. O amanhecer do dia foi lindo demais. O Illimani começou a ganhar luz e com tons que nos encantava. Aos poucos o sol apareceu e a imensidão de gelo se abriu por todos os lados.
Huayna Potosi 6.088m

Após vencermos uma escalada mais técnica, chegamos a uma crista que dava de frente para a floresta amazônica boliviana, coberta por um mar de nuvens que pareciam espuma. Neste ponto, Marcelo e Mário já sentiam bastante a altitude, davam sinais de muito cansaço. Contemplando tamanha beleza, seguimos em frente. Os nossos guias, Juan, Sérgio, Osvaldo e Carlos ditavam o ritmo e sempre nos motivando.

Llamas pelo caminho
Cemitério referente ao massacre de mineiros em 1965

A cerca de 5800 metros, Marcelo e Caponi tiveram que parar e decretar que o cume ficaria para próxima. Já estavam no limite de suas forças e sabiam que quanto mais tentassem ficaria pior a descida da montanha. Foram para baixo em busca de melhoras e se juntar a Sussumo e Paulo que estavam no abrigo.

Abrigo Base do Huayna 4.700m

Minha emoção estava a flor da pele, senti um nó na garganta em ver meus amigos retornando depois de tanto tempo se falando e planejando para isso. Cheguei a ficar com medo de acontecer alguma coisa comigo também e ter que baixar. Pensava o tempo todo em estar no cume e pensava muito em tudo que aconteceu para que eu estivesse ali. Mirei para cima e pedi a Deus que me desse a oportunidade de estar no cume desta montanha e dar um glória a ele.
Alojamento

Sabia que tinha muita gente que torcia por mim nesta escalada. No final, formaram-se as cordadas com Juan, Francisco e Edna e a outra com Carlos, Orlando e eu. Rumo ao cume, fomos a passos lentos. Sentia-me muito cansado e com um pouco de dor de cabeça. Não tomei quase nada de água.

Refeitório do refúgio

Tive que fazer uma parada boa antes do cume para poder hidratar e descansar um pouco. Orlando e Carlos, montanhistas experientes neste tipo de terreno, tiveram muita atenção comigo, me motivando o tempo todo e assim seguimos pra o cume.


Chegamos ao cume as 12:00, festejando muito por termos conseguido. A adrenalina sentida para chegar ao cume do Huayna, fez com que eu esquessece um pouco do meu esgotamento. Emoção a mil e abraços apertados marcaram nossa conquista. Um brado de glória eu pude dar do alto desta montanha que teve um marco inesquecível em minha vida. Ficamos por ali, nos hidratando e comendo, esperando pela cordada do Juan. Mas o tempo passava e nada deles chegarem. Hora já era avançada e tìnhamos que descer.

Altos visuais

O barulho do gelo se desprendendo da montanha junto com pedras enormes fazia o medo circular entre nós. Na descida cuidadosa do cume, avistamos Juan, Edna e Chico bem próximos do cume, parados em um platô na crista da montanha. Juan nos alertou que Edna e Chico já não aguentavam mais e preferiram descer dali e não tentar a passagem exposta para chegar no cume.

Batismo no gelo

Foi por pouco, mas eles certos da decisão e que deveriam retornar para se recompor. Assim, Juan desceu com eles e nós seguimos atraz a passos bem mais lentos, pois estavamos cansados.

Subida ao Glaciar

Mas com paciência chegamos ao abrigo avançado por volta de 16:00, um horário tarde para chegar, mas tudo certo e com sucesso garantido. Com muita emoção, fomos recebidos com abraços apertados do restante da equipe que nos aguardava. Foi muito bom o que vivi neste lugar.
Montanhistas descendo o glaciar

Tive a benção de pisar numa das montanhas mais belas da Bolívia e chegar no topo de seus 6088 metros de altitude. Isso na minha primeira viagem a este tipo de lugar. Enquanto descia, eu já avistava meu próximo destino, o grande Illimani. Logo estarei por lá novamente. Retomamos o caminho de volta a La Paz.

De volta ao hotel, tomamos um belo banho merecido. Fomos as compras e depois nos reunimos na agência Altitud6000, para trocarmos fotos e e-mail. Saimos da agência direto para a pizzaria comemorar tudo que vivemos na cordilheira. Uma equipe maravilhosa estava reunida a mesa, comemorando cada esforço, todo o desafio vivido no Huayna Potosi.

Nosso voo estava marcado para as 02:00 da manhã do dia 25, e então ficamos até os ultimos instantes com nossos amigos bolivianos. De volta ao Brasil, só alegria. O exelente trabalho das empresas Grade6, Triboo Motanhismo e Atitud6000, fizeram valer cada instante na montanha.
Caminhada no glaciar velho

Técnica de gramponagem

Introdução a técnicas de segurança em gelo


Mais gramponagem

Começando a ficar bom

Top rope

Mais top rope

Paulo Heitor no Top Rope

Juliano no top negativo

Volta para o Base

Equipe partindo parao abrigo avançado

Montanhistas e cume


Passos lentos



Lindas formações


Camp Rock 5.170m

Montanhistas descendo do cume

Parte interna do abrigo Camp Rock

Hora de descanço


Equipe de resgate descendo do cume


Equipando para entrada no Glalciar

Amanhecer na subida


Face oeste do Illimani

Chico na primeira pendente

Grupo descançando e se esquentando no sol

Passitos


Subida linda !

Grandes fomações no gelo


Cume ao fundo

Grupo voltando

Carlos, Juliano e Greta


Visuais incríveis

Crista final

Visual para face oeste

Pedra solta e gelo derrentedo

Juliano Ribeiro nos 6.088m

Carlos Santalena nos 6.088m

Orlando Mohallem nos 6.088m

CUMEEE !

Mantiqueiros no cume do Huayna Potosi

Cume, Mururata e Illimani

Região norte do Cordillera Real com destaque para o Illampu e o Ancohuma

Orlando, Juliano e Carlos descendo do cume (foto: Juanjo)

Juanjo, Edna e Chico descendo

Chegada ao Rock Camp





Amanhecer no Rock Camp

Juanjo registrando o amanhecer


Galera descançando

Sr. Sussumo

Equipe se despedindo da montanha

Horta da partida

Compartilhando nossas fotos na Altitud 6.000


Centro de La Paz a noite
Chegando em São Paulo

TEXTO: Juliano Ribeiro
FOTOS: Orlando Mohallem

5 comentários:

Anônimo disse...

Meus amigos/irmãos.
Que felicidade eu sinto em ver esta mais uma conquista pessoal de vocês.
Apesar de eu andar meio longe, meu laço de amizade por todos da triboo é sempre firme e forte!!!
Um grande abraço!!!

JONAS PANNAIN

Açaí & Café disse...

Parabéns Juliano por essa primeira conquista em montanhas gringas!! Grande abraço em todos da Triboo. Muito louca as fotos do local...esses dias tive o prazer de conhecer o Sr. Maeda em Marmelópolis e pude perceber como já está famoso o trabalho da Triboo na região. Parabéns Orled
Abraços
Bruno

Paula Souza disse...

Amigooo que coisa mais LOKAA essa trip, Lembro que quando saimos do brasil vc estava indo viajar ne! ABSURDAAAA as fotos, la paz eh uma cidade mil vezes mais interessante do que eu imaginava. VIAJAR EH BOM DEMAIS>.

E a escalada no top hope no gelo, eh tranquilo? a gente precisa por as conversas em dia, encontrar no skype e manter a conexao. hehehe E o Sitio no agulhas, posso te contar: foi a coisa mais especial que fiz no brasil nos meus 40 dias, ter fikado o dia todo no meio dakele lugar que signifika TUDO pra nos.. AMEI akele paraiso de uma forma que naum te como explicar naum.. A gente deiva ter dormindo la ne!?
BEijos.. Mande noticias suas e da loo, a gente logo ta de volta! bjuuuu

Carlos Azevedo disse...

Parabéns Orlando, Juliano , Carlão e todo o grupo por mais este cume importante lá na Bolivia.
Grande abraço a todos

Carlos Azevedo

hector original disse...

muito legal! achei muito interessante e olha que sou só criança